Barrancos

É o mais pequeno concelho da margem esquerda do Guadiana. Com uma única povoação. Barrancos. Sede de concelho e freguesia. Cerca de dois mil habitantes.

Depois de uma estrada que parece não ter fim, a vila, profusamente branca e de casas térreas, aparece quase como um encantamento quando chegamos às Cumbres. A quatro quilómetros quando olhamos a nascente. Para trás fica Santo Aleixo da Restauração, para quem vem pela Estrada Nacional 258, ou a Amareleja, utilizando a antiga Nacional 386.

Encostada à fronteira, meia dúzia de metros até à estreita ponte que liga Portugal a Espanha, esta comunidade é conhecida pelas suas particulares afinidades com o país vizinho. Histórias que têm famílias de origem espanhola que aqui se instalaram, de uniões entre gente dos dois países, de fugas no tempo da guerra civil, de contrabando, das mãos dadas no derrubar da corrente que separava os de Encinasola e de Barrancos até à entrada dos países ibéricos na União Europeia.

A praça é o ponto de encontro obrigatório nesta vila. Aí se localizam as duas sociedades recreativas que outros tempos separavam "ricos" e "pobres". Aí se realizam as famosas festas de Agosto. De 28 a 31, que o dia 1 de Setembro já é a festa do ano seguinte. Aí se acende o gigantesco fogo que aquece o Menino na noite de 24 de Dezembro. Festa comunitária que reúne todos os barranquenhos em torno à grande pira de lenha que começa a crescer a 8 de Dezembro.

Barrancos respira uma certa magia nas suas ruas maioritariamente empedradas. Estreitas, sinuosas, desembocando em escadarias, passando arcos. Ruas sempre limpas e paredes brancas. Telhados com bonitas chaminés acolhendo dezenas de ninhos de cegonhas. Brancas que as pretas só se vêem saindo ao campo.

Gente afável, de trato aberto, com o barranquenho o convite ao "copo" e à "tapa" aparece, naturalmente, entre dois dedos de conversa. Que as palavras jorram. Em qualquer café ou taberna; na rua ou miradouro.

Subindo daí ao Alto Sano a vista rasga o horizonte e ajuda a descobrir distâncias e a olhar para além do que ela alcança. Quase 400 metros de altitude. Um ondulado interminável de cerros. Para lá e para cá da fronteira.

Mas se a vila e as suas gentes obrigam, só por si, a ficar em Barrancos, para mais quando as piscinas recentemente inauguradas convidam no Verão quente a uns mergulhos, o concelho é uma manta profusa de retalhos. De paisagens, de recantos raros, de cores e de cheiros perfeitamente inesquecíveis.

Rasgado por três importantes linhas de água, o Ardila, o Múrtega e o Murtigão, o concelho de Barrancos é a imagem da diferença que marca esta margem esquerda do Guadiana. Na multiplicidade de zonas de água e na diversidade de paisagens pregueadas nesta região dita seca e plana. Nichos de uma fauna rara e diversificada. Que se observa sem grande dificuldade. Como a lontra, o guarda-rios, o saca-rabos, a cegonha-preta, o texugo, o bufo.

No Múrtega, ribeira que antes de se juntar ao Ardila alberga no seu leito a Barragem do Bufoque abastece a vila raiana, a fonte da Pipa. Dela jorra eternamente uma água fresca e doce. Quando se bebe a primeira vez é-se obrigado a voltar, diz-se. E, o açude do moinho da Pipa, cria ali uma larga lagoa onde por entre banhos e umas pescarias se engana a tarde. E se aguça o apetite para voltar outro dia.

Mais acima o Cadaval. Onde os barranquenhos se juntam na Segunda-feira de Pascoela. Zona da ribeira onde os vales encaixados de xisto se alargam e a ribeira sorve as margens criando um largo lençol de água. Sobra um arvoredo rico e bastante para refrescar.

A norte, fazendo fronteira com Espanha, o Ardila corre sinuoso. Entre vales encaixados que aqui e ali se abrem as largas vargens e areais. E remata com naturalidade uma paisagem de montado, de vez em quando de olival, do lado e Barrancos, contrastando com o nu das terras do lado de lá. Terras limítrofes da Andaluzia, já entrados na Extremadura.

É desta realidade que foi e é feita a história deste concelho. De trabalho em terras de montado e fronteira. Da produção de porco preto e de raças bovinas autóctones; das escaramuças de um território em conflito com o vizinho há muitos séculos atrás. Aqui se produz o famoso presunto de porco preto e enchidos derivados do porco, com particular destaque para o catalão.

Aqui se levanta uma das mais importantes fortalezas no medieval sistema defensivo da fronteira sul portuguesa. O Castelo de Noudar. Construído nos inícios do século XIV, pela ordem de Avis, Noudar foi o primeiro Couto de Homiziados criado no país, em 1308. Abandonada em meados do século XIX, a vila chegou a albergar cerca de 200 pessoas numa área de pouco mais de 11 mil metros quadrados. Mas antes, uma ocupação humana contínua desde pelo menos 3000 anos antes de Cristo, fazem de Noudar, do ponto de vista científico, um dos mais interessantes sítios da nossa região. Aí se encontram vestígios arqueológicos desde o Calcolítico. Por aqui passaram romanos e árabes. O nome de Noudar significa olhar. Derivará da sua função de atalaia junto à antiga via que ligava Beja e Moura a Jerez de los Caballeros. Antiga sede do concelho, até ao século XVIII; Monumento Nacional desde 1910, é o ex-libris do concelho e, actualmente, propriedade da Câmara Municipal de Barrancos.

A dois passos, ergue-se a capela de S. Ginés. Um monumento do século XVII cujas ruínas ainda são motivo de visita, na romaria das gentes de Valência del Mombuey que anualmente, a 19 de Março, ali se deslocam.

Alguns quilómetros acima, num cerro de difícil acesso e onde o esteval predomina, outra fortaleza aparece dissimulada na paisagem. O castelo de Cid. Ocupado durante o século I a.C., foi concerteza palco para as batalhas que opuseram Sertório ao império Romano.

Mas a memória desta comunidade encontra-se, igualmente, nos resquícios de uma actividade artesanal que aqui vai sobrevivendo. Em particular a cestaria e as cadeiras com fundos buinho. Gestos conservados na simplicidade ancestral desta comunidade. Utilizando materiais que recolhe nos campos e nas margens das ribeiras. Salgueiro, freixo, vime, esteva.

Barrancos é também a margem esquerda do Guadiana. Na sua diversidade e especificidade. Onde cada canto é uma surpresa. A cada instante. Para o mais incauto.

Miguel Rego

Última actualização
Domingo, 8 de Agosto de 2010
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