Mértola

Mértola é o porto do Guadiana. Do Guadiana navegável sob os efeitos das marés atlânticas, que a montante do Pulo do Lobo acabam e o rio se torna menos profundo. Do Guadiana do longínquo Mediterrâneo que ao longo de milhares de anos transportou comerciantes e mercadores, novas culturas e religiões, objectos e produtos. Mértola é o passado da margem esquerda. Ponto de partida e de chegada.

A vila, nos seus mais de 2000 anos de história, cresceu sobranceira ao Guadiana e protegeu-se a poente pela irrequieta ribeira de Oeiras. As suas muralhas enlaçam o casario branco assente no terreno irregular. Em cada rua, em cada beco, sorve-se a história da vila e da região. Lavrada na pedra.

A visita torna-se obrigatória e ninguém pode ficar indiferente ao conjunto de infra-estruturas museográficas que possui uma localidade com cerca de 1200 habitantes. O castelo e o núcleo de paleocristão da Torre de Menagem. O criptopórtico romano, o espaço áulico tardo-romano e o bairro islâmico na alcáçova do castelo. A Igreja Matriz, antiga mesquita. No Rossio do Carmo, a basílica paleocristã, um espaço religioso do século V, recebe em exposição um grande número de lápides que evocam gentes vindas da Grécia, da Líbia. Constata-se a continuidade do espaço de enterramento dos mortos com vestígios desde o século VII antes de Cristo ao século XIII. Passando a ponte da Ribeira de Oeiras, na margem direita, o Convento. Um espaço onde o moderno da arte se revê nas labirínticas formas do antigo espaço religioso.

Mas a vila museu é também o presente. E o rio estende as suas águas calmas à actividade dos jovens canoístas do Clube Náutico, mas também aos poucos pescadores que ainda resistem aos novos tempos. Já sem a abundância do sável e da lampreia, da saboga ou do picão, mas bordando o leito do rio com as suas redes.

Apanhando algum peixe que ficará nas malhas dos aparelhos, que o muge, esse nunca partirá destas águas.

E Mértola é as suas gentes e o pequeno comércio. E a arte das tecedeiras da Oficina de Tecelagem. Das mantas tradicionais alentejanas, peça milenar de cheiro exótico dado pelo azeite no tratamento das lãs e pelos motivos decorativos sobreviventes a todos os anos dos homens.

Terra de grandes rebanhos de ovelhas, onde as pastagens e os pousios vão sendo substituídas por largas manchas de pinheiro, mas onde se vão preservando memórias. De profissões e artes. De pastores artesãos, dominando as palavras e os gestos. De roupeiros exímios, no fabrico do apelidado "queijo de Serpa", de almece, de manteiga de leite de ovelha.

Mas Mértola é as duas margens. Porque em tempo algum correu divisão pelo Guadiana acima. O concelho tem mais de cem localidades. Uma rede impressionante de caminhos ligando-o à serra algarvia, ao Campo Branco, às planuras de Beja, à serra de Serpa, a Espanha.

Na margem esquerda do concelho, " além do Odiana", a Mina de S.Domingos aparece como um símbolo desta região. Mais de cem anos de exploração de cobre de uma das mais importantes minas de pirite da Península Ibérica. Hoje mantém-se a estrutura urbana do bairro mineiro. As casas rasteiras, ruas homogéneas e largas, o branco da cal nas paredes. Da velha mina resta uma paisagem quase lunar, esventrada, ruínas das estruturas de apoio à mina, terras com cambiantes de cor diferentes todos os dias. Sobram os velhos mineiros e o sonho da reabertura da mina, ou de qualquer outro projecto, para que o futuro dos mais novos possa ser ainda a Mina de S.Domingos.

Seguindo o trilho do velho caminho-de-ferro de transporte de minério, hoje já sem carris, chegamos ao Pomarão. O porto da mina. Pequena localidade onde o número de habitantes ronda hoje as 20 pessoas. De tradições na pesca, no amanho das redes e na cumplicidade com os trejeitos do rio. Que abastadas e gostosas caldeiradas de peixe se comem aí.

Uma quase melancólica paisagem trouxe-nos até aqui. Multiplicam-se os cerros onde o trigo foi substituído por manchas intermináveis de estevas. Mas a Primavera virá luxuriante e o verde seco transformar-se-à em intermináveis horizontes de branco, floridas que estarão as estevas e as margaridas despertaram já do sono de Verão e do Outono. Ao lado do Pomarão a Barragem espanhola secou a foz do Chança, mas cria um novo mar de águas, agora doces e paradas.

Um dos mais importantes recursos da região é a indissociável relação entre o homem e o meio. A sua complementaridade. É nesta relação que assenta a essência do parque Natural do Vale do Guadiana que ocupa grande parte do concelho de Mértola, alargando as suas fronteiras a parte da Serra de Serpa. Nessa fronteira o Campo Experimental do Vale Formoso é uma verdadeira lição de como se deve tratar e cuidar a terra. Um jogo perfeito entre o aproveitamento cuidado da água, a utilização regrada dos diversos tipos de cultura, o respeito pelas formas naturais do relevo e pelos caprichos da natureza.

O concelho de Mértola procura preservar e ensinar esta relação património-homem-natureza. Um trabalho dedicado da Associação de Defesa do Património e do Campo Arqueológico que merece ser conhecido.

Nas intervenções realizadas no Moinho de Alferes, gozando o leito da Ribeira do Vascão. Ou no moinho de vento de S.Miguel do Pinheiro. Ainda nas escavações arqueológicas de Alcaria Longa. Ou na recuperada capela da Senhora do Amparo. Ou no Monte do Vento, próximo da Amendoeira da Serra. Ou na recuperação da capela de S,Sebastião no pátio da Escola Secundária.

Por aqui rapidamente chegamos a um dos locais mais fascinantes desta margem esquerda. Que também se revê do lado de Serpa. O Pulo do Lobo. Onde o rio largo se estreita e desaparece numa garganta de pouco mais de um metro para, logo a seguir, mergulhar numa enorme lagoa.

Mas o pulo do Lobo é muito mais do que o slogan fetiche do neo-liberalismo que pôs tão em moda o termo Alentejo profundo. Representa a riqueza natural e cultural desta margem esquerda tão cheio de surpresas. E Mértola é bem a génese de um projecto cultural que tem esta região como palco.

Miguel Rego

Última actualização
Domingo, 8 de Agosto de 2010
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